Por Ludmila Almeida

Alline Flores 

Sobre fronteiras, encruzilhadas e comunicação...

Esse texto parte de reflexões junto ao Coletivo Magnífica Mundi, os espaços visitados em Foz do Iguaçu e o alimento – em suas múltiplas dimensões – compartilhado nesse processo.

 

Com quantas fronteiras você lida cotidianamente? Como elas organizam sua vida? Como elas te limitam? Quando pensamos em “fronteiras” uma das primeiras imagens é a demarcação territorial, a delimitação geográfica de um espaço, de um Estado, de uma nação. Podemos pensar a fronteira como uma arma de desconexão ornamentada pelas meganarrativas de dominação, das quais nós, seres da periferia do projeto global, somos apagados/silenciados. Dentro disso, a globalização – que veio com a promessa de expandir a comunicação e evidenciar a diversidade cultural – atualiza a homogeneidade e a hierarquia de relações de poder que se encontram perceptíveis em nossas escolhas, em nossas percepções de mundo, do que somos nesse mundo e até do que podemos sonhar nele.

 

“Fronteira” tem como princípio criar dualidades, separar, e isso é ordem expressa do ato de dominar, de “reorganizar” e exterminar o que causa “desordem”. O projeto geopolítico, de separar o mundo em pequenos blocos de poder auto gestadas, mas em interdependência de mercado, reescreveu nossas dimensões afetivas, de como nos relacionamos com os outros, com os espaços. Não podemos esquecer que fazer fronteiras é uma ação fortemente ligada à ideia de propriedade privada, domesticar para o mercado, acumular riquezas pela exploração. Tornar uma região como espaço privado, desconsiderando quem já estava ali ou privatizando algo que deveria ser comum – a terra, água, alimento – se direciona também a reorganizar as mobilidades-liberdades, fortalecer o egoísmo e consumir os recursos naturais da mesma forma que se consome quem é tido como “menos humano”.

 

Toda essa aparente desconexão de ideias surge para tentar entender o porquê das fronteiras e de como elas estão presentes em nossas vidas. A vivência em Foz do Iguaçu, setembro de 2019, nos faz experienciar o quanto as fronteiras também se movem com a gente, inclusive as geográficas. O ato de se posicionar como goiana num espaço do sul, convoca histórias de pertencimento e apagamento – como sabemos, o eixo do saber nos taxa como o “quintal da casa grande, Rio-São Paulo” – , mas também de uma vontade de sentir que mesmo com o roubo do que somos, ainda resistimos para nos refazer junto a esse coletivo da periferia do projeto global.

 

O encontro com outras pessoas de um mundo que antes parecia tão grande e impossível de experimentar, se aproxima. Esse estranhamento, de como nos relacionamos com a diferença projeta o quanto parece estarmos distantes – não só pelo o que significa a língua, mas por um histórico de nomeações dos quais fomos amaldiçoados a carregar – de nossas irmãs e irmãos também latino americanos. A Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) é um espaço de refúgio e de reencontro com universos possíveis.

 

Ao ter como objetivo reunir estudantes de toda a América Latina, expande a ideia de universidade, atuando de forma pluriversa, e questiona a fronteirização, tanto nacional quanto epistêmica. Ela se torna uma encruzilhada – um espaço simbólico-físico em que se encontram vários caminhos e nos mostram várias possibilidades de ser.  E mesmo a Unila se localizando no sul do Brasil, não se compõe aos seus trajes e forma interações que vão além da história que compõe o “ser do sul do Brasil”. A potência desse espaço de refúgio vem dos corpos que o constroem, é uma universidade anticolonial com a proposta de desordem.

 

Uma das palavras que mais me deparei nas rodas de conversas em nossa vivência nessa universidade foi a “decolonialidade”. Esta é uma ideia discutida a um tempo por estudiosas e estudiosos da América Latina, e diz respeito a formas de enfretamento às atualizações da colonialidade (Aníbal Quijano, Catherine Walsh, Maria Lugones, Walter Mignolo). É um termo que parte de intelectuais, mas a sua prática efetiva se dá pelos movimentos sociais, por pessoas que mesmo não se nomeando como “decoloniais” agem nesse sentido a fim de romper com correntes de saber naturalizadas-violentas.

 

No entanto, prefiro utilizar aqui o “anticolonial”, trazendo o prefixo “anti-” como algo contrário em vez do prefixo “de-” que expressa oposição. Seguindo a fala de Ângela Davis, feminista negra norte-americana conhecida por sua participação no Panteras Negras, na situação em que nos encontramos não dá para sermos apenas não racistas, é preciso ser antirracista, e o uso-escolha dos prefixos muda a percepção e cobra uma posição nossa diante dos acontecimentos. Uma posição que vai além do simples identificar-se, mas ir a combate, praticar, ser, principalmente, no ato de reconstruir nossas subjetividades, tão violentadas pelas meganarrativas.

 

Mas trago tanto a ideia de fronteiras quanto de anticolonialidade para finalizar e encruzilhar com a comunicação. Trago isso a partir da figura do Enugbarijo, o grande comunicador, está ligado aos saberes da oralidade, é o Exu que fala todas as línguas, é a boca coletiva da comunicação que rege a encruzilha. Essa, de acordo com Simas e Rufino (2019), são perspectivas de mundo, incertezas, nos mostram os riscos das escolhas, e pode ser pensada com Enugbarijo por ser este “a boca que tudo come e o corpo que tudo dá. É ele que versa sobre as transformações radicais e sobre a necessidade constante de reinvenção da vida” (SIMAS & RUFINO, s/p, 2019)[1].

 

Se comunicação requer ação, troca, dinamicidade para a construção de pontes em um movimento de ação-reflexão, como nos aponta a práxis pelo Paulo Freire, então, ela pode ser um instrumento de romper muros em nossos caminhos. Sendo que esses se encontram em nosso dia a dia e não se portam apenas como delimitação geográfica, perceber onde eles estão em nossas vidas, em nossa forma de perceber o outro e do quanto a reciprocidade humanidade-natureza precisa se reestabelecer, é parte de uma ação anticolonial que nunca se deixou ser domada – física, simbolicamente e epistemicamente – na produção de conhecimento fora da academia.

 

Além disso, podemos ver a fronteira como uma costura e como toda costura ela não se fecha por completo, sempre fica alguns espaços. Da mesma forma, a tentativa de desconexão entre nós, a natureza, separando as ciências em caixinhas, os humanos legítimos dos “ilegítimos”, as referências de leituras do cânone e as que não são, as linhas imaginárias desenhadas pelo esquartejamento do mundo, são feridas provocadas pela violência colonial-imperial e que invalidam os atos de criatividade para sobrevivência. O reencontro com nossas irmãs e irmãos nessa zona Paraguay-Argentina-Brasil mostra que estamos conectados, que nossas lutas são comuns e que a ferida precisa ser tratada pela ação de compartilhado.

 

A invenção de barreiras é algo fundamental para a opressão funcionar e se desdobrar nas mais diversas dimensões da vida. Mas a ideia de encruzilhada pode nos fornecer horizontes, nos permite sonhar com um lugar sem fronteiras subjetivas, sem fronteiras de afeto, pois nos aponta a comunicação da escuta e das potências de vida que se encontram em cada pessoa. Isso baseado na encruzilhada das trajetórias dos encontros que clamam para que sua história seja contada, que sua narrativa seja ouvida e projetada para que experiências não sejam esperdiçadas e vidas não sejam exterminadas-atropeladas nas avenidas epistêmicas. A encruzilhada da comunicação é o local de compartilhar, coletivizar o que temos e não temos, é experimentar a dimensão dos que ali estão, é se conhecer, é sentir que a ancestralidade é contemporânea.

 

 

[1] Simas, Luiz Antonio; Rufino, Luiz. Fogo no mato: A ciência encantada das macumbas. Editor Mórula Editorial, 2019.

Ludmila Almeida

 

Pesquisadora negra, da periferia, do cerrado; doutoranda em linguística e estudante de jornalismo.

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