Uai, sou Lúcio Damasceno

– Qual o nome completo do senhor?

–Você não sabe não? Êeeee! Já te falei!

Alguns instantes de silêncio, coça a cabeça:

– Uai, sou o Lúcio! Lúcio Damasceno.

– Quantos anos o senhor tem?

– Que perguntaiada é essa? – sacode o corpo no movimento dos braços.

– Desculpa Tio Lúcio, é só curiosidade.

– Tenho 84!

Jordana Barbosa

A “perguntadora” foi descobrir que ele tinha 80, dois anos depois. Tio Lúcio é assim, fala o que quer e só quando quer. Quando tentam filmá-lo ou tirar uma foto está procurando no mínimo uma bronca e, se insistem, uma briga. Mas não é timidez, longe disso. Tio Lúcio não se envergonha em dizer o que pensa, em brigar com quem não conhece. Fala alto, mexe as mãos e todo o corpo pra contar a mínima história. Pensa mais rápido que a luz e tem na ponta da língua a resposta pra tudo.

 

Um furacão!  Mas Tio Lúcio não é só fúria, explosão e ventania. Ele também é silêncio, é quietude, é doçura, é sabedoria. Enquanto o galo canta, Tio Lúcio está no córrego se lavando, calado. Sem acordar ninguém se levanta, atravessa a casa e desce até a água. Volta, faz café no fogão à lenha, acende um taboqueiro e fuma quietinho no canto da cozinha.

 

Se tem visita em casa, o seu ritual não muda, é invisível pela manhã. Mas se alguém acorda junto com ele e fala um pouquinho mais alto, ele trata de por a pessoa no lugar: “Tem gente dormindo, sussega o facho!”. “As minina precisam dormir”, sempre defende o descanso das dorminhocas, mas homem que dorme até tarde, não tem vez para Tio Lúcio, “é murcho, êita  minino froxo, mucho”.

Pedra de Amolar, córrego de águas cristalinas, é quintal de Tio Lúcio e Tia Joana. | Foto Vinicius Pontes

Tio Lúcio parece um pequeno rio, na seca é silencioso, corre calmamente, não sai do seu leito, desvia das pedras sem fazer alarde. Nas chuvas, é barulhento, imprevisível, pode-se escutar seu barulho a metros de distância, em fúria transborda e arrasta tudo o que estiver pela frente e ao lado. Deve ser por isso que Tio Lúcio decidiu morar tão perto do Pedra de Amolar, quase com os pés dentro da água.

 

Um singelo corregozinho, o Pedra de Amolar. É ele que dá as boas-vindas aos visitantes da casa no pé-da-serra. O caminho d’água fica a 300 metros da casa, os passantes já podem ser ouvidos por quem está na cozinha. A casa de Tio Lúcio é passagem, é a última casa antes da serra, antes das estradas era inevitável cruzar com Tio Lúcio e o Pedra de Amolar.

 

Talvez esse seja o motivo de Tio Lúcio ser tão conhecido na serra que forma o Calunga. Mas também sua fama pode ser atribuída a sua personalidade, suas histórias, seu trabalho durante toda a vida, no trato com os filhos e até nas farras e na famosa meizinha preparada com folhas, ervas e pinga.

Mas Tio Lúcio já pensou em morar em outros lugares quando ele e sua esposa eram jovens.

 

– Eu tava em Formosa e o patrão falô, Lúcio mora aqui, o emprego é bão. Uai, vô falar com a muié. Falei: Joana! Vamo pra Formosa, tem casa, emprego. Joana pulô dessa altura – dá uma risada. Antes dela pensá já falô: Vô não, de jeito nenhum, se quiser ir vai sozinho. Aí não fui.

 

O Curralinho é a casa e o lugar dos dois. Já construíram duas casas ali. Já trocaram o telhado muitas vezes. Viram os filhos nascerem, crescerem e mudarem pras cidades. Foi ali que receberam as notícias de casamento e nascimento dos netos e bisnetos. Foi ali também que enterraram alguns dos seus filhos.

Ao pé da serra que forma os Calunga, Tio Lúcio vive, planta e cuida de animais. | Foto Vinicius Pontes

Tio Lúcio conquista quem passa por seu caminho, daí suas amizades duradouras. Selvino, já falecido, foi um grande amigo e o amigo que ficou se emociona quando fala dele.

 

– Era caçador! Pegava tudo quanto é onça por aí e caçava com zagaia.

 

– Zagaia?

 

– É! Nunca viu não? Uma faca na ponta de uma vara, aí encantua a onça e na hora que ela dá o bote, enfia a faca nela, não pode errar. Se errá, o cabra já era. – ri – E Selvino era o melhor. Muitcho meu amigo, amigo demais, vivia aqui.

 

Ainda tinha Gaudêncio, branco dos olhos azuis, garimpeiro. O companheiro de Tio Lúcio das farras, caçadas, do trabalho duro na lavoura. Mas ele não esquece seus outros amigos. Na verdade, Tio Lúcio não parece esquecer nada. Ele respira provocação, brincadeiras e até algumas mentirinhas (que ele não veja isso).

 

Quem o conhece há muito tempo sabe bem como é o jogo. Já chega com uma provocação na mão e então começa uma brincadeira de empurra-empurra de palavras. Com sua mulher não podia ser diferente. Tio Lúcio e Joana brigam a cada cinco segundos, e a cada três cuidam um do outro. Se Tio Lúcio implica alguém, Joana trata de defender. Se ele fala algo baixinho dela, ela já dá o grito de onde estiver e responde à altura.

 

Niltim, grande amigo de Tio Lúcio, chegou para visitá-los num mês que chovia e fazia frio. Os dois disputam a atenção de Joana, mas o amigo vinte e dois anos mais jovem tem Joana como sua advogada e Tio Lúcio se irrita com a mínima pergunta.

 

– Tio Lúcio, diz, senhor tava apaixonado. – fala Niltim tentando uma provocação. 

 

– E a senhora Tia Joana, o que a senhora viu nele que apaixonou? Devia ter alguma coisa né.

 

– Eu? Não fui eu não! Nunca apainoxei nada. – responde sem pensar Joana.

 

– Nada o que? Tá por fora! – Tio Lúcio já está irritado.

 

– Por homi nenhum! Isso foi macumbaria dele. – Niltim não se aguenta de rir às palavras de Joana que fala com cara de desdém.

 

– Ocê toda vida foi invocada. Toda vida ocê foi invocada.

 

– Nunca, nunca. Ele era ixibido.

 

– Eu era assim meio malandro pro lado de moça assim, sempre era três, quatro, cinco, seis namorada, uma praqui, outra pra acolá, lá em Monte Alegre, nessas festa da região, porque naquele tempo a festa era boa. Tinha ela no Vão de Alma – aponta para Joana -, mas passava os zói na outras criola que tinha lá no Vão de Alma, ia pras festa da Ouromina, tinha umas moça que vinha de Nova Roma pra região e Lúcio tava enroscado pra essas bêra sempre tinha uma. Lá em Monte Alegre sempre tinha uma ou duas e era assim ajeitado mermo. Lúcio era invocado. – Tio Lúcio não se contenta em ser deixado pra trás e precisa contar vantagem, o que deixa a mulher nervosa.

 

– Joana era bonita, pro senhor apaixonar nela. Devia ser linda! – continua Niltim.

 

– Era! Todas elas!

 

– Mas o senhor escolheu ela!

 

– Mas o negócio é que foi a palavra do véi.

 

– Foi nada!

 

– Foi!

 

– Se não tivesse paixão não casava não. Casava?

 

– Casava porque o véi me... Niltim, Niltim ocê deixa de sê bobo rapaz, depois de ocê querer ser homi, palavra de dois homi...

 

– Palavra só de um! Porque o senhor, sei não. – e cai na risada.

 

– Podia ter largado pra trás. Apaixonado? Não! Queria ouvi se era homi ou muleque! O caso é sério! O caso é sério.

 

Entre uma provocação e outra, Tia Joana e Tio Lúcio cuidam um do outro há décadas. Tio Lúcio, averso à câmeras, encara o fotógrafo. | Foto Vinicius Pontes

O Lúcio sistemático

 

Um grupo de nove pessoas está sentado na porta da casinha de adobe, em troncos. Um barulho quase ensurdecedor de cigarra invade os ouvidos e a cabeça. A luz já é fraca e junto com a proximidade da noite os pequenos chupadores de sangue com asas aparecem. Mas as pessoas não se importam com as leves picadas, nem com o barulho.

 

– Tio Lúcio canta uma música pra gente aí, a gente acompanha. – pede Niltim.

 

– Vocês não têm rumo pra me acompanhar! Vô cantá não, só vô falar um tipo de uma piada procês. Assim, é musica, mas vô falar como piada: quer dizer que... aliás vô falar uma adivinhação procês primeiro. Eu quero que ocês me diga quem é que travessa o rio, num moía e num faz sombra? Ocês tudo quer ser boa.

 

– Já sei: é o vento. – alguém fala.

 

– Tá meia perto minha filha, mas assim, o vento passa o rio, passa o mar, passa a serra, passa tudo.

 

– Fala aí Tio Lúcio! – pede alguém.

 

– Se me pagar eu falo! – cai na risada.

 

– A gente vai ficar sem saber?

 

– Num é problema meu mais né. Ocês é tudo sabido, fala aí.

 

Ele fica em silêncio encarando um por um, esperando uma resposta. Dá uma risada comprovando que ele é vencedor.

 

– Então quem é o filho do seu pai e da sua mãe que não é seu irmão?

 

– HÁ! Essa eu sei! Sou eu!

 

– Tá, então vô cantá uma música pra mode ocês me dizer, me contá. Uma música falando dum fazendeiro muito rico, rico, rico, rico e tinha uma filha. Tinha uma vaca muito brava, assim demais que não tinha vaqueiro pra pegar. Então ele disse que dava a filha pra quem pegasse a vaca. Aaaaaaaah esse boato correu no Brasil todo e vinha vaqueiro de todo lado querendo casar. A moça chamava Loriana. Todo mundo com vontade de ganhar a Loriana. Vinha vaqueiro de todo lado, ninguém pegava a vaca. Mas ocês é tudo sabido! Eu quero que vocês me digam quantos, quantos, quantos, quantos vaqueiros correram pra ir pegar a vaca – enquanto fala levanta os braços pra cima e sacode no ar.

Começa a falar, cantar seu desafio. A voz tem melodia, mas a pequena canção não dura 10 segundos:

 

– Foi Antônio Araújo, Zé Vieira Simão, Pedro Pescoço Torto, Chico do Arrião, Juca Perna de Aço e Nildo de Riachão, Manuel do Pé Queimado, o genro de Feitosa, Zé Raimundo, Nicodemos da fazenda da Margosa querendo pegar a vaca misteriosa.

 

Começa a interrogar quantos vaqueiros são no seu desafio.  Ninguém consegue responder.

 

– Tio Lúcio, canta uma música, outra. – pede Niltim

 

Ele se cala, fica minutos em silêncio. Começa a bater palmas entrecortadas com batidas dos pés no chão.

 

– Mandamento de um caboco, vou falar qual é o primeiro, é honrar a Santa e nosso Pai Verdadeeeeero. ÊEEEEeeeeee!

 

Se levanta e deixa a plateia implorando pelo resto da música. Ele desaparece dentro de sua casa.

Lúcio conta, canta, provoca e faz graça. | Foto Vinicius Pontes

Um ano depois, quatro pessoas na cozinha preparando o jantar sob a luz amarelada de uma lâmpada. Tio Lúcio está sentado num cantinho da cozinha e começa a bater palmas entrecortadas por batidas de pés.

 

– Mandamento de um caboco, vou falar qual é o primeiro, é honrar a Santa e nosso Pai Verdadeiro

 

– Mandamento de um caboco vou falar qual é o segundo, namorar moça bonita a dar uma volta pelo mundo

 

– Mandamento de um caboco vou falar qual é o terceiro, namorar moça bonita e cheirar vidro de cheiro

 

– Mandamento de um caboco vou falar qual é o quarto, pontiar um violão da primeira até o baixo

 

– Mandamento de um caboco vou falar qual é o quinto, os homens trabalhador e eu falo a verdade eu não minto

 

– Mandamento de um caboco vou falar qual é o sexto, mulher veia ciumenta deu uma surra de cabresto

 

– Mandamento de um caboco vou falar qual é o sétimo, beber cachaça boa misturada com ferneti

 

– Mandamento de um caboco vou falar qual é o oitavo, custear uma sogra ruim e montar num burro bravo

 

– Mandamento de um caboco vou falar qual é o nono, cantar com desafio o caboco que resolve

 

– Mandamento de um caboco vou falar o derradeiro, cobiçar a mulher do próximo e ficar sempre solteiro

 

Parece existir um calendário especial na cabeça de Tio Lúcio. Funciona para ele, os dias tem horas diferentes e cada minuto passa a seu modo. E o dono desse tempo transita pelos dias, pelas horas com passos lentos, às vezes olha para trás, às vezes corre. Em menos de um minuto muda de ideia e de posição. “Tio Lúcio estamos indo pra Monte Alegre, quer ir junto?”, ele se apressa e rápido pega um toalha e desce a trilha para o rio, 50 minutos depois ninguém o encontra.

 

Depois de uma hora e meia conseguem sair de casa. Na cidade Tio Lúcio faz a festa, parece vereador em época de eleição acenando. Ele compra balinha e pirulito em todo lugar que entra, mas depois que ele se cansa da cidade, o que não demora a acontecer, ninguém o segura. Se ele diz “RAMBORA!”, todos resolvem suas coisas em segundos e o acompanham, e se demoram muito; cadê Tio Lúcio? Está indo a pé.

 

Lúcio na Capital

 

Joana tem catarata há mais de dois anos. Já houve mutirão para convencer Tio Lúcio que a cirurgia seria a solução. Joana tateia as coisas, não vê o rosto de ninguém, cai frequentemente. Tio Lúcio e Rosimar a ajudam no dia a dia da casa.

 

Tio Lúcio, vim buscar o senhor e Tia Joana pra gente ir pra Goiânia ver a cirurgia dos olhos da Tia. E dessa vez vocês vão. Vai arrumar as coisas.

 

Óh o esquento dessa menina! Mas como que eu vô? Tenho que arrumá as coisas, não Esquentada, Joana não vai agora não.

 

Por que Tio?

 

Não, não. Tem jeito não. Uma muierada fez essa cirurgia aí e tudo morreu – sussurra as últimas palavras – Joana não vai não.

 

Não vai acontecer nada com a Tia Joana não, Tio Lúcio, fica tranquilo, a cirurgia é muito simples, vai ser bem rapidinha, a consulta já tá marcada pra segunda. – ajuda Niltim.

 

No caminho pra Goiânia, depois de horas de conversa e explicações. O casal não está tranquilo. Mas Tio Lúcio revela que tem sentido algumas dores: “Senti uma tontura, fiquei mal e um amigo me levou pro médico. Fiz um exame que coloca uma mangueira na boca, sabe? Fiquei com medo Esquentada! Fiquei com medo de nunca mais ver essa véia aí”.

 

Apesar do medo ainda diz que ao médico não vai de jeito nenhum, é pra cuidar só de Joana e rápido. A casa ficou nas mãos de Rosimar e Niltinho, um neto de 20 anos, mas só depois de horas e horas de recomendações e desconfianças. A casa é uma coisa que deixa a preocupação estampada no rosto de Tio Lúcio.

 

Depois dos dois primeiros dias em Goiânia e do primeiro passeio, Tio Lúcio aparenta descontentamento, está muito agitado, se irrita facilmente e as alfinetadas são mais frequentes. Mas é a melancolia que prevalece nas conversas.

 

Óia! Conhecia essa Goiânia pra todo lugar. Andava no setor Pedro Ludovico o dia todo. Santina quando mudou pra cá morou no Veiga Jardim. Mas hoje, hoje tá diferente. Tá grande demais. Tenho uma maloca de parente aqui e pelejo pra ver um na rua. Não vejo ninguém. UM CONHECIDO! – fica sério depois de gesticular em todas as palavras.

 

Mas é assim mesmo Tio Lúcio, aqui é muito grande e todo mundo vive numa correria. – a Esquentada passa a mão nos ombros do amigo para consolá-lo.

 

É como eu tava dizendo, aqui não é lá. Lá em casa, eu sou doutô! Sou doutô do mato. Conheço todo mundo, sei andar, tenho muitchos amigos, tudo querido demais.

 

Uai, e aqui?

 

Tenho também, mas aqui é duro. Aqui é conhecimento. Conhecimento e prática. Pra andar tem que ter conhecimento, pra ir na feira tem que ter conhecimento. É tudo conhecimento, prática e costume, mas eu já sou fraco. Se fosse no meu tempo, quaaando, quaaando eu era jovem, aí sim eu ia ler tudo, ter conhecimento, mas agora já tô fraco.

Tia Joana, de cirugia feita, usa óculos escuros durante a recuperação da visão. | Foto Vinicius Pontes

Dia do médico

       

Esquentada, essa rôpa tá boa?

 

O senhor tá ótimo!

 

Num sei né, porque na cidade é tudo civilizado, tudo chiqui.

 

O senhor tá ótimo!

 

Bão, bão. Joana, tá pronta? Vamu! Ela tá se arrumando faz um tempão e não termina.

 

O trio entra no hospital, Tio Lúcio coça a cabeça e pede pra ir embora. “O doutô não vai atender a gente não. Tem gente demais!”. Depois de trinta minutos sentados esperando atendimento, ele, inquieto, levanta, senta, dá uma volta, coça a cabeça.

 

Esquentada já vô te falar, se eu não gostar do médico, não vô tomar remédio, não vô fazer exame, vô fazer nada!

 

Tio Lúcio, já começou!?

 

Lá em Monte Alegre fui no médico, nem olhô pra mim, mandô eu fazer um exame duro, duro. Um da mangueira que entra pela boca. Mexeu tudo lá dentro, foi duro. E depois parece que tá doendo aqui – aponta para a barriga.

 

Lúcio Pereira – grita ao longe uma enfermeira.

 

Tio Lúcio e o médico conversam, tentam identificar os problemas, trocam perguntas, respostas e esclarecimentos. O médico examina, explica, escuta, examina novamente, conta histórias e levanta hipóteses e se espanta:

 

Seu Lúcio, o senhor tem 81 anos? Nossa, tomara que eu chegue a isso tudo. Vai ficar com a gente mais quanto tempo, mais uns vinte anos?

 

NUNCA! Já tô cansado, quero tudo isso não.

 

Eu digo que de 0 a 50 anos é menino, de 50 a 100 é adolescente e depois dos 100 anos que o homem se torna adulto. O senhor é um adolescente ainda.

       

Tio Lúcio dá uma boa risada batendo palmas.

 

Gostei Esquentada. O doutô é muito bão!

 

Lúcio até sai de casa, mas não cosegue ficar muito tempo longe do seu Curralinho. | Foto Vinicius Pontes

Os contatos

 

– Alô! Dió? Tudo bem?

 

– Me diz, e o povo, tem notícias?

 

– FOI? Não é possível? Niltinho já foi embora? Nuncredito!

 

– E Rosimar tá sozinho? Você foi lá? Quê que você viu?

 

– É! Tô em Goiânia sim, mas vô embora sábado, porque em dezembro tenho que tá aqui.

 

– É bão! Positivo! Bão demais! Pois é! Aaaaaah. Tá, tá. Fica com deus Dió. Tchau.

 

Ele tira o telefone do ouvido sem pressa. Coça a cabeça com a mão por baixo do boné azul e branco. Suspira.

É Joana, tenho que ir embora mermo, Niltinho que é mais ajuizado foi embora, Rosimar tá sozinho. Quando a gente chegar nossa casa vai tá toda desmantelada. E quando Rosi... não dá pra deixar sozinho. Você fica e eu volto em dezembro.

 

Tio Lúcio ainda fica mais uma semana, numa sexta-feira de outubro liga pra sua amiga:

 

Esquentada, vô embora amanhã!

 

Não Tio Lúcio, por favor, fica mais um pouquinho. Marquei pra segunda seus exames. O senhor vai deixar a Tia aqui sozinha?

 

Amanhã! Se der ocê me leva na rodoviária e me põe no ônibus, se não der dô meu jeito.

 

Nossa, Tio Lúcio! Como o senhor é difícil, que cabeça dura. Daqui a pouco ligo pro senhor.

 

Alguns minutos depois:

 

Francisco deixa eu falar com o Tio Lúcio.

 

Alô! Quem é daí?

 

Sou eu Tio.

 

E aí Esquentada?

 

Tem dois ônibus amanhã. Um sai meio dia e meio e o outro às oito da noite. Qual o senhor quer ir?

 

Depois de um tempo de silêncio ele diz: É melhor ir nas oito né, porque tava pensando, eu chego lá de manhazinha, dia. Se eu for no do meio-dia chego de noite.

 

Tio, o senhor vai sozinho? É perigoso? Deixa...

 

Não! Ocê me leva?

 

 Tio Lúcio...

 

Seis hora eu tô pronto!

 

Às cinco da tarde o carro estaciona na porta da casa de Francisco. Tio Lúcio já está na porta com todas as malas. Tem arroz, muda de cana-de-açúcar, roupas e uma comidinha pro caminho. Se despede do filho, da nora e do neto. Joana já está na casa de outra filha, Santina.

 

O senhor falou pra Tia Joana que tava indo embora?

 

Acabei de ligar. Falei! Ela quer ir também. – fala com os olhos tristes.

 

No caminho não para de falar um segundo. Fala sobre o povo civilizado, a prática para viver na cidade, que agora ele não paga passagem, que iria à pé se ninguém o buscasse,  que o melhor lugar do mundo é sua casa, e repete algumas coisas e repete de novo. Fica atento às ruas, pergunta onde está, quanto falta pra chegar, a hora que o ônibus sai.

 

Na rodoviária, no guichê da companhia, a única que faz o trajeto até Monte Alegre, Tio Lúcio tira a identidade do bolso.

 

Eu não pago, já tenho mais de 80 anos.

 

 O senhor devia ter preenchido a papelada de manhã. – diz o atendente sem levantar a cabeça.

 

Ei moço! Moço! A gente preenche agora. Eu preencho pra ele, bem rapidinho.

 

Cadê a carteirinha de idoso? – fala baixinho.

 

Quê Esquentada, que ele falou?

 

Tio Lúcio, o homem tá pedindo a carteirinha de idoso.

 

Uai! Aqui óh! – entrega o RG – isso não vale nada não?

 

O atendente respira fundo: _ Olha não é assim não, pra viajar de graça tem que ter a carteirinha pra provar que é idoso, tem que vir no mínimo de manhã se a viagem é à noite, e preencher a papelada pra garantir a vaga.

 

Mas na televisão não é assim não! Eu posso viajar sem pagar, já tenho 82 anos.

 

A passagem é 98 reais. – é a resposta do atendente.

 

Tio Lúcio, vô pagar, porque se ficar aqui discutindo o ônibus vai sair, já são oito e 15, o ônibus sai oito e meia.

 

Os dois compram a passagem, preenchem o bilhete e se direcionam ao box para o embarque. A acompanhante dele faz recomendações ao motorista e ao rapaz que guarda bagagens.

 

Esquentada tá achando que sô menino? Conheço tudo lá. Tenho muitchos amigo lá, óia eu vô descê na ponte do Paranã, quando chegar lá eu arranjo carona pra casa. Me viro, lá é tudo conhecido.

 

Ele entra no ônibus, a menina fica na plataforma com lágrimas nos olhos, sua cara não engana ninguém, ela está preocupada. Um homem se aproxima: _ Pra onde seu pai vai?

 

Ela sorri: Não é... Ele tá indo pra Monte Alegre.

 

Não se preocupe não, ele vai descer no lugar certinho. – o motorista garante.

 

Obrigada! – ela anda até a janela que, o agora viajante está sentado. – Tio Lúcio, Tio Lúcio! Ô Tio Lúcio!

 

Hein! Quê foi? – com a cabeça pra fora da janela.

 

Tem como o senhor me ligar quando o senhor chegar lá? Tá com meus números aí no bolso néh?

 

Tem sim, eu ligo. Pode ir embora! Já tá tudo ajeitado. Vai descansar minha fiinha. Fica com Deus que eu tô indo com Ele.

 

A menina vai embora e Tio Lúcio não liga.

Esta reportagem foi elaborada dentro da disciplina de Jornalismo Literário e orientadado pela professora Angelita Pereira de Lima, em 2014.

 

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