Por

THALLYA RODRIGUES

CULTURA

As Meninas Super Poderosas e a abordagem de papéis de gênero

Desenho mostra que não é tão difícil assim falar sobre questões de gênero para crianças

Açúcar, tempero e tudo que há de bom: assim nasceram as primeiras super heroínas feitas para crianças – e não apenas meninas. Desde sua criação no fim da década de 90 até seus últimos episódios, a animação é conhecida e elogiada por tratar questões complexas de forma simples e genial. E sem nunca ofender ninguém.

 

Depois de um pequeno incidente em seu laboratório, Professor Utônium se viu diante da responsabilidade de ter que criar três meninas com poderes incríveis e, desde então, divide seu tempo entre fazer experiências científicas e ser um dedicado pai e dono de casa em um avental cor de rosa, e isso nunca foi problema para ele. Além disso, enquanto o Professor se ocupava das tarefas domésticas, eram as Meninas quem realizavam o trabalho mais “pesado”, como lavar o carro e cortar a grama. Essa inversão de papéis, incomum nas sociedades patriarcais, perpetua-se por todos os episódios, principalmente nas situações em que homens encontravam-se em perigo e vulneráveis e eram as Meninas quem prestavam socorro.

 

Docinho, Lindinha e Florzinha na versão antiga do cartoon

Uma das questões mais interessantes sobre o desenho era que, ao contrário de incontáveis super heroínas, as meninas nunca foram hiperssexualizadas, afinal eram apenas crianças. Poderes como super força, super velocidade ou visão congelante nunca tiraram delas seu ar de fofura. Uma verdadeira lição para o mundo das histórias em quadrinhos em que as mulheres fortes ou são completamente destituídas de feminilidade ou são totalmente sensuais, traços esses que parecem ser os únicos capazes de despertar a atenção numa heroína para um público adulto.

 

Sempre foram heroínas originais, e não a versão masculina de algum personagem, como Batgirl e Superwoman. Em determinado episódio surge um trio de garotos vilões que são a versão masculina delas, mas que nunca foram, de fato, páreos para seus poderes.

 

Um dos vilões mais interessantes do desenho era “Ele”, criatura que nunca tivera seu nome pronunciando, mas que aparentemente era um demônio. E trazia, pela primeira vez nas animações infantis, comportamento andrógino. Apesar dos traços masculinos, como a barba e a voz, usava maquiagem, salto alto e, constantemente, uma saia de balé.

 

E não para por aí. Os episódios traziam valiosas lições sobre feminismo e papeis de gênero; num deles, o Major Glória tenta impor às Meninas as regras do patriarcado e fica chocado quando descobre que, na casa delas, quem realiza os serviços domésticos é o homem. E, então, de forma honesta e inteligente, chega o episódio em que se é abordado diretamente o tema feminismo. A vilã Femme Fatale usa dos ideais feministas para tentar convencer as Meninas de que elas precisam de uma vilã na cidade, já que praticamente só havia homens no mundo do crime. Com a confusão das garotas, que passam a perceber certas desigualdades de gênero em seu mundo, a vilã consegue roubar quase que impunemente. Felizmente, as garotas ficam sabendo do caso de Susan B. Anthony – uma importante ativista feminista e abolicionista da sua época e que, ao cometer um crime e ser condenada a pagar apenas uma multa, já que era uma mulher, exige ser tratada como um criminoso comum e levada para cadeia -, e assim percebem que feminismo se trata de uma luta por direitos iguais. Então, do mesmo jeito que fariam com qualquer outro personagem mau caráter, jogam Femme Fatale na cadeia.

 

Lançado em 1998 e, após 78 episódios, a animação foi descontinuada em 2005, para a tristeza dos fãs. Mas isso não duraria muito tempo.

 

 

O REBOOT

 

Novo logo do desenho

Neste ano, a Cartoon Network anunciou que começaria a exibir uma versão mais atualizada da série. Eis que somos surpreendidos logo na primeira cena liberada: Docinho lutando contra um lenhador machista, cujo episódio se intitula “Não me chame de princesa”.

 

Alguns episódios depois, o tema transsexualidade é abordado quando as Meninas encontram um pônei cujo maior desejo era ser um unicórnio, pois no fundo se sentia como um. No final, o personagem descobre que sempre foi um unicórnio por dentro, apenas se apresentava de maneira diferente – uma forma inteligente e não sexualizada de abordar as questões de gênero para o público infantil. E, brilhantemente, o episódio termina exibindo os tradicionais corações nas cores da bandeira trans.

 

Lindinha e o pônei Donny

Há dezoito anos, As Meninas Super Poderosas dão verdadeiros tapas na cara da sociedade patriarcal, que insiste em tratar temas tão importantes como tabu. O que era abordado de forma velada vem para ser escancarada na nova versão. Se nós, adultos, já estamos satisfeitos com o desenho, imaginar uma geração de crianças refletindo sobre esses temas enquanto cresce é tudo que há de bom.

 

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© 2015-2016. Criado por Vinicius de Morais Pontes, sob orientação do profº Nilton José dos Reis Rocha. FIC/UFG.