Por Fernanda Peixoto

Aos olhos dessa criança

 

Quando criança um dos interesses que mais me fascinava era o desenho animado. Nenhum brinquedo, música ou jogo me deixava tão entretida quanto aqueles minutos de animação. Superando as mais doces expectativas de minha família continuo amando tal bela arte. Dos meus cinco anos aos 10. Dos meus 10 aos 15. Dos meus 15 aos meus 20 anos.

 

 Ainda lembro as palavras de minha vó ao explicar o meu comportamento: Fernanda é “criançona”. Talvez ninguém da minha família tenha parado para pensar em o quão formador e informativo pode ser um desenho. E era isso que me entreteve todos esses anos. Acredito que as pessoas vivem em um mundo paralelo quando acreditam e reproduzem que a animação não é para adulto, mas somente para as crianças.

 

Não posso dizer se foi pensando em quebrar essa ideia que Alê Abreu produziu e dirigiu a animação “O menino e o mundo” (2013). Quiçá a crítica seja apenas social e a escolha da animação como canal serve para intensificar a condenação da sociedade exposta. E isso ele faz bem, em traços simples, lembrando o giz de cera, o filme crítica a miséria, a fome, o trabalho escravo, o trabalho infantil e a classe média que escolhe está alheia a tudo isso. O Brasil ao lápis de um brasileiro.

 

“O menino e o mundo” relata a história de garoto que mora com seus pais em uma pequena casa no campo. Diante da falta de trabalho e a seca, o pai parte para a cidade grande em busca de sustento para a família. Com saudades do pai o menino faz as malas, pega o trem e vai descobrir o novo mundo em que seu pai mora.

 

A película é o outro lado da relação da música “Asa branca” de Luiz Gonzaga. É a resposta do filho do músico. Se o pai criticou o sertão, o menino vem criticar a cidade. É curiosa essa analogia, porque o pai do menino também é músico. Sua melodia será a trilha sonora de praticamente 65% do filme, já que o mesmo praticamente não tem diálogos entre os personagens. As poucas conversas são entre os adultos. Placas, palavras e conversas estão todas embaralhadas, afinal, conversa de adulto, criança não endente.

 

Entretanto, a partir do momento que o menino se aventura em busca do seu pai, ele começa a desbravar o mundo. Nas palavras da melodia composta pelo Emicida para o filme “Gente, carro, vento, arma, roupa, poste aos olhos de uma criança”. Nesta aventura, Alê Abreu colocou o menino para conhecer os abusos nos três setores da economia.

 

Primeiro o menino viu a exploração dos trabalhadores nos campos de algodão. Na cidade, notou como a modernização das maquinas retirou empregos de milhares de pessoas na fabrica de tecidos. Em um descuido o menino estava entre os containers e presenciou a desigualdade entre os países. De volta ao Brasil aquele mesmo algodão que ele viu colher e aquele mesmo tecido que ele viu tecer, havia se tornado roupas e outros produtos caros onde quem fez não podia comprar.

 

Uma das partes que mais me chamou a atenção é quando o menino encontra com o trem que seu pai havia pegado. No meio da estação, com o coração na mão, o menino espera ansioso a possível saída do pai de um dos vagões. A felicidade é nítida quando ele vê o rosto familiar do seu pai, mas ela é por pouco tempo. Há uma explosão de imagens. Milhares de personagens com as características do pai do menino transbordam entre os vagões. É uma argumentação do diretor. Varias pessoas migravam do campo em busca de trabalho.

 

 Incrível do começo ao fim, a animação de 1 hora e 25 minutos deixa a plateia abalada. Como pode o mais leve dos traços conter tão grande reflexão? Não foi por capricho que ao todo o filme ganhou 34 prêmios. Incluindo o   Prêmio Cristal de melhor longa-metragem no 38º Festival de cinema de animação de Annecy (na França), o Grande Prêmio da Monstra - Festival de Cinema de Animação de Lisboa e o atual Annie Awards de melhor filme de animação (realizado no dia 06 de fevereiro de 2016).

 

Não é a primeira vez que Alê Abreu realiza uma animação onde um garoto se aventura em conhecer o mundo. Garoto Cósmico (2007), conta a história de Cósmico (Aleph Naldi), Luna (Bianca Rayen) e Maninho (Mateus Duarte), amigos que vivem em um mundo futurista, onde as vidas são inteiramente programadas. Uma noite eles se perdem no espaço, enquanto buscam obter mais pontos para ganhar um bônus na escola. Eles então descobrem um universo infinito, esquecido num pequeno circo, onde vivem novas experiências.

 

            Pode ser fascínio de quem ama uma animação, mas aos olhos dessa criança conhecer e assistir “O menino e o mundo” deveria ser uma obrigação de todos os brasileiros, assim como conhecer e ler Machado de Assis. Quem sabe assim, além de ter uma experiência incrível com esta animação, podemos deixar de ser alheio nesta parte que nos cerca.

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Sobre

Fernanda Carolina Souza Peixoto, 21 anos, cursa Comunicação Social – Jornalismo na Universidade Federal de Goiás.

 

Apaixonada por livros, filmes e viagens está atualmente em um relacionamento serio com Jane Austen

Este blog foi desenvolvido especialmente para o site Berra Lobo.

 

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