Por

RENATO SILVEIRA COSTA

CIDADES

O ciclista urbano e a gentrificação da cidade

Olho

A partir da experiência traumática de se ter um; dois; três veículos de uso cotidiano furtados: em menos de dois anos; em ambiente público; sempre com cadeado posto, um ciclista convicto chega à fronteira da desesperança: muita repressão por ser impedido de estacionar; nenhuma política afirmativa; pouco amparo legal no caso de furto, além de um cotidiano desgastante, por potencialmente mortífero: os males dos ciclistas são!

 

A chamada gentrificação da cidade, movimento de financeirização do espaço público por meio do qual cidadãos e cidadãs são marginalizados em suas aspirações de moradia, permanência, convívio e representação social, menosprezados enquanto moradores e consumidores - por sua baixa capacidade de consumo- promove também uma exclusão do lugar da bicicleta e do ciclista no planejamento de vias, fluxos e estacionamentos na cidade.

 

Ora, entretanto, como previsto no código de trânsito e, mais significativamente, no fundamento da República, o ciclista, e o cidadão, devem ser representados em sua plenitude de direitos: segurança, saúde e liberdade!

 

Nestes últimos dias o Mercado Municipal de Goiânia cristalizou esse conceito de gentrificação em suas práticas repressivas, impostas a seus consumidores ciclistas. Inúmeras bicicletas já foram furtadas em seu estacionamento, no qual nenhuma estrutura de segurança jamais foi

implementada ao longo de inúmeros ocorridos. Nenhuma delas indenizadas, até que este autor se empenhou em uma ação civil pública, em um juizado de pequenas causas, e causou um alvoroço na presidência da associação que administra este local público, de interesse coletivo, patrimônio da cidade e de seus cidadãos.

 

Como se um estacionamento, concedido pela prefeitura, se responsabilizar por um bem furtado de um consumidorfosse algo absurdo! Alegam todo tipo de desculpas sem saber serem responsáveis por todos os bens ali deixados, mesmo com um segurança contratado para tal fim, que no fim serve a inibição do uso da bicicleta e a coação dos clientes que ali vão pedalando e querem simplesmente estacionar em local seguro.

 

Além da boa condição de moradia, o direito a cidade é o acesso a transporte de qualidade, respeito ao consumidor e ao usuário de serviços públicos. As ocorrências frequentes no Mercado Municipal de Goiânia atentam contra estes princípios, com o reiterado abuso de autoridade por parte da administração e da segurança.

 

Este estado de coisas é constante no meio social brasileiro! Conjuntura maquiada pela sociedade de consumo que, enquanto bons consumidores, alienam os mais abastados da vivência dos enfrentamentos que o grosso da população trava diariamente, e por isso imobiliza a mobilidade, de transito e social! É preciso clareza ao questionarmos a realidade dividida que vive o país. Enquanto shopping centers de bairros estão abarrotados de cidadãos iludidos da universalidade de sua cidadania, os centros de nossas cidades estão menosprezando sua clientela tradicional, cerceando a liberdade do cidadão e da cidadã de baixa renda e gentrificando o acesso a cidade!

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