Vida ambulante

Júlia Barbosa

Histórias marginais de quem ganha a vida nos segundos do sinal vermelho

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Texto e narração: Júlia Barbosa

O sinal fechou e já é

hora de trabalhar

“Olha a água!”

“Olha a balinha!”

Olha os "rapa" vindo

nos pegar

Corre depressa que trabalhador não tem vez

Sacola prum lado, o trocado no bolso

Será que é suficiente pra garantir o almoço?

Entra no eixo que a clientela é mais agradável

Mas antes de descer, dá uma olhada boa

Que se tiver polícia: Perdeu, playboy!

Vou repetir: trabalhador aqui não tem vez.

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Ilustração: Júlia Barbosa

Desemprego?

Desculpa de preguiçoso!

Acorda às quatro da manhã

Entra no terminal

Só sai quando não sobrar mais mercadoria

Que é pra economizar na passagem

Volta pra casa no último ônibus

Despede do motorista

Cumprimenta os bêbados da rua

Fecha a porta e vai descansar

Que ser vagabundo cansa.

Se a vida como ambulante já não é fácil, a situação dos vendedoores está sendo cada vez mais dificultada, com uma repressão ainda mais intensa. Há anos vendedores ambulantes lutam pelo direito de venderem suas mercadorias dentro do Eixo Anhanguera, em Goiânia. Segundo o ambulante Ronan dos Santos, que está ativo nas mobilizações desde o início, a prefeitura havia concordado em discutir as reivindicações, mediante a entrega de um abaixo-assinado.

 

Com a petição em mãos, com cerca de 2.000 assinaturas, os vendedores levaram o manifesto até a prefeitura. Entretanto, o atual prefeito, Iris Rezende, se recusou a receber o documento, ainda segundo Ronan. Nos últimos meses, o confisco de mercadororias passou a ser cada vez mais frequente e agressivo, de acordo com o ambulante Juliano Toledo. Ele acredita que todas essas medidas fazem parte, ainda, do plano de privatização do eixo.

"O governo vê os vendedores ambulantes como um empecilho para eles. Por isso, eles estão fechando cada vez mais o cerco, até que não tenhamos mais condições de trabalhar"

Imagens: Júlia Barbosa

*Os nomes adotados são fictícios, a pedido da/os entrevistada/os*

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As fugas de Maria

 

Nascida em solo maranhense, aos onze anos, Maria, criança já acostumada com a dureza da vida, teria uma oportunidade única, vindo para a capital goiana, de buscar algo melhor que a miséria. Mesmo tão jovem, já sabia que não poderia perder essa chance. Quem passa fome não tem tempo pra ser criança. De mala e cuia, sem passagem de volta, se despediu do Maranhão, esperando poder dizer adeus, também, à pobreza. E essa foi a primeira fuga de Maria.

 

Veio tentar a vida em Goiânia, limpando o chão da casa de uma senhora, dia após dia. Chegando aqui, a senhora a colocou para trabalhar em uma casa de prostituição. "Se fosse pra trabalhar em cabaré, eu ficava era na minha terra, que tem é muito", comentou. Não demorou muito para, mais uma vez, Maria fugir das amarguras da vida. Sozinha e em uma cidade desconhecida, essa foi a segunda fuga de Maria.

Imagens: Júlia Barbosa

Uma informação importante que ainda não contei: Maria sofre com epilepsia. Pouco tempo depois, sem teto e sem sustento, ela teve seu primeiro ataque epilético, no meio da rua. Com socorros prestados, foi internada em um hospital psiquiátrico. A essa altura, você certamente imagina o passo seguinte: a terceira fuga de Maria.

 

Sem conseguir se aposentar, hoje, ela trabalha como vendedora ambulante. Se por acaso você passar pela Avenida Goiás e ouvir "água gelada, congelada e natural!", nem pense duas vezes antes de tomar um gole. Andando entre os automóveis, aproveitando do sinal fechado. Contra agentes fardados querendo prender sua mercadoria, essa é a fuga constante e permanente de Maria.

Imagens: Júlia Barbosa

Batman da Rua 3

 

O pedido foi feito, casamento chegando, mas nada do dinheiro. Terno, gravata, aliança e buquê. O trabalho como garçom não bancava a cerimônia. Foi então que, há cinco anos, a Rua 3, no Centro de Goiânia, passou a ser frequentada pelo Cavalheiro das Trevas. Ou, pelo menos, por sua máscara e uniforme. Saulo passou a se fantasiar para vender doces no sinaleiro. Tempos depois, chuva de arroz, sorrisos e festa. O casório finalmente saiu.

 

Acompanhado de rosas vermelhas, hoje trabalha de terno e gravata, na mesma Rua 3. Em contraposição pela formalidade da vestimenta, sobrevivendo de um trabalho informal. Entre carros, motos e olhares de menosprezo, eis um personagem para se admirar. Fora de universos cinematográficos, a justiça que Saulo busca é trabalhar dignamente. Essa sim, com as próprias mãos.

Imagens: Júlia Barbosa

Cantadô de terminal

 

Fim de tarde de um domingo qualquer. Todos sentados no ponto 341 do Terminal do Dergo. Pra quem não sabe, ônibus rodando no domingo é coisa rara de se ver. Por isso, não me surpreendiam as caras de desânimo, os olhos baixos e cansados. Silêncio. Um cantarolar baixo começa no fim da fila, talvez pela angústia da mudez interminável. Vai aumentando, gradativamente, até que seja possível reconhecer o dono daquela voz falha.

 

A frente, seu instrumento de trabalho, colorido e chamativo, ao passo que você não precisaria ouvir um "olha o algodão doce!" para reavivar a alma de criança. Acontece que Dedé, como é conhecido, não é um ambulante comum. A voz falha vem mais da cantoria, que dos gritos para vender o doce. Faz show com participação de Roberto Carlos e Adoniran Barbosa - ou, ao menos, compartilham o espírito de cantadô.

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Imagens: Júlia Barbosa

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