Agata Castro, Ana Luiza Peixoto, Fabiane Rebelo, Fernanda Aguiar, Heloiza Caus Isabella Lima e Michely Moura 

A história da Fotografia tem seus primórdios ainda antes de seu invento, considerando a criação da Câmara Escura, pelos gregos – a qual permitia a passagem da luz por um orifício e assim formava a imagem invertida na superfície oposta, – e o aprimoramento desta no período Renascentista. Posteriormente, surge na França a primeira fotografia impressa, em 1826, pelo francês Joseph Niépce, que conseguiu gravar uma imagem em uma placa de estanho por meio do uso de um material derivado do petróleo, – o “Betume da Judeia” – o qual endurece quando colocado em contato com a luz e, no caso, demorou-se 8 horas para que houvesse resultado.

 

Depois disso, Joseph Niépce se une ao também francês Louis Daguerre para continuar os experimentos acerca da Fotografia, mas em 1833 Niépce morre e Daguerre é quem continua a aprimorar a técnica da qual tinham conhecimento. Daguerre substituiu então o betume por prata polida e vapor de iodo, o que forma o iodeto de prata: uma substância muito mais sensível à luz e que permitiu o processo passar de horas para poucos minutos. Dava-se então, em 1839, o surgimento do Daguerreótipo, que possibilitou a produção de fotografias mais rapidamente, além dessas terem maior qualidade e nitidez.

 

Entretanto, é de grande importância ressaltar que os primeiros passos para o desenvolvimento da Fotografia também haviam sido dados no mesmo período por um francês estabelecido há anos no Brasil: Hercules Florence. Em 1833, na atual cidade de Campinas, interior de São Paulo, Florence também havia desenvolvido um método fotossensível por meio de uma câmera obscura, mas não conseguiu divulgar sua participação no processo de desenvolvimento da Fotografia, visto a imensa dificuldade comunicacional do Brasil daquele período, o que se configurou como uma grande injustiça, pois Florence não conseguiu nenhum reconhecimento por suas descobertas. A relevância do francês fora reconhecida apenas décadas depois e os registros evidenciaram que ele foi quem cunhou e utilizou pela primeira vez o nome “fotografia” (photographie), que significa escrita com a luz.

 

Após tal apanhado histórico, percebe-se que a França teve uma expressiva participação na criação e no desenvolvimento da Fotografia. Para elucidar tal condição, tem-se como exemplo duas figuras francesas que foram icônicas no mundo da Fotografia, além de terem marcado o período fotográfico do fim do século XIX e o século XX, sendo estes os fotógrafos Eugène Atget (1857-1927) e Pierre Verger (1902-1996).

 

Eugène Atget começou a fotografar entre 1890-92 até o ano de sua morte, em 1927. Atget vivenciou a virada do século XIX para o XX e, portanto, acompanhou momentos importantes da França, focando seus trabalhos em Paris e o entorno da cidade e, dessa forma, documentou-a por meio de sua Fotografia. Eugène Atget retrata as mudanças da cidade ao longo dos anos e em meio aos contextos da Belle Époque e da Primeira Guerra, além de explicitar a reconfiguração que ocorria em Paris naquele momento devido ao intenso processo de modernização. Atget morreu em agosto de 1927, sem ter tido nenhum reconhecimento em vida, mas a fotógrafa Berenice Abbott difundiu as obras deste nos anos seguintes e o consolidou como um dos maiores fotógrafos de todos os tempos.

 

Já o francês, Pierre Verger, que começou suas fotografias em 1932, e foi até o fim dos anos 70, diferente de Atget, fez viagens e registros pelos cinco continentes do mundo. Apesar de suas tantas experiências em viagens, foi com a Bahia que Verger se encantou, principalmente ao chegar na cidade de Salvador e conhecer o Candomblé. Pierre Verger fotografou o povo baiano, a cultura afro brasileira, o culto aos orixás, a capoeira e diversos outros aspectos locais, além de fazer inúmeras viagens para a África, onde viveu seu renascimento no Candomblé, e assim, passou a dar mais significado a sua obra fotográfica.

 

A presente exposição, como exposto até então, tem como intuito explorar as obras de dois dos grandes nomes da história da Fotografia, os quais, por meio de obras totalmente distintas, em períodos diferentes, com enfoques e tipos de técnicas diversos, tem obras singulares e igualmente valorosas para a História da Fotografia, não tendo, portanto, seu valor histórico, artístico ou técnico diminuído por tais diferenças. Eugène Atget e Pierre Verger foram dois franceses que contribuíram imensamente na construção histórica da Fotografia, assim como em sua diversidade. 

 

Preparamos a seguinte exposição para elucidar parte da contribuição dos franceses para a Fotografia, no caso, de dois grandes fotógrafos franceses, Eugène Atget e Pierre Verger, evidenciando a vida e as obras de cada um. Esperamos que você faça um bom tour e viaje em descobertas sobre a bela trajetória pessoal e profissional destes! Bon voyage!

Eugène Atget

Jean-Eugène-Auguste Atget, mais conhecido como Eugène Atget, foi um fotógrafo francês que nasceu em 12 de fevereiro de 1857 e morreu em 04 de agosto de 1927. Eugène fora criado pelos avós maternos em Bordeaux, na França, após ter ficado órfão. Cresceu na cidade e após cursar o Ensino Médio, passou por diversos ofícios: foi marinheiro, ator, pintor e, por fim, com cerca de 40 anos de idade, fotógrafo. Entre 1890 e 1892 retornou à Paris atuando nesse ofício em pleno contexto da Belle Époque parisiense. 

Enquadrando-se na categoria flâneur, que se trata de um tipo de fotógrafo que fotografa os locais da cidade e o cotidiano das pessoas. Atget tinha um estilo próprio e inovador de Fotografia: se centrava em fotografar Paris, seus becos, cidadãos e cidades do entorno. Considerado como o pai da fotografia moderna, Eugène fotografava tais locais e situações para documentar a Paris da época, que vinha perdendo espaço para a modernização.

As fotografias de Atget não tinham como foco retratar as pessoas, mas sim os locais – principalmente estando estes vazios – e suas peculiaridades. Despretensiosamente, o fotógrafo acabou utilizando a técnica do objet trouvé (objeto encontrado), que é o ato de fotografar objetos que normalmente não são considerados artísticos porque não têm uma função artística. 

Tal característica pode ser amplamente percebida nas fotografias de Eugène, como em suas fotos de escadarias, portais, estátuas, vitrines de lojas e seus manequins. Assim, suas obras eram condizentes com a técnica do objeto encontrado e tinham uma perspectiva voltada ao cotidiano, o que fez com que Atget fosse considerado o precursor da fotografia surrealista.

Pouco tempo antes de falecer, Atget aceita conversar e ser fotografado pela ajudante de seu amigo pintor, fotógrafo e cineasta surrealista, Man Ray. Por meio desse encontro, Atget conheceu a futura fotógrafa, Berenice Abbott, a qual se encantou pelos trabalhos que Eugène havia produzido durante a vida e que ainda eram desconhecidos pelo mundo.

Atget morreu em agosto de 1927, sem ter tido nenhum reconhecimento em vida. No entanto, Berenice difundiu as obras deste, que configuram mais de 10.000 fotografias, e o tornou conhecido primeiramente nos Estados Unidos e, posteriormente, no restante do mundo, como um dos maiores fotógrafos de todos os tempos. 

Retrato de Eugéne Atget feito por Berenice Abbott

Da esquerda para a direita e de cima para baixo: foto 1: Tocador de Órgão (Paris, 1898-1899); foto 2:  Rua do Sena (Paris, 1924); foto 3 : Spring, pelo escultor François Barois, em Jardin des Tuileries, 1st arrondissement (Paris, 1907); foto 4: Notre Dame vista de Quai de la Tournelle (Paris, 1923); foto 5: Degraus de Saint-Cloud (Paris, 1906); foto 6: Prostituta fazendo o turno em La Villette, 19e (Paris, 1921).

Pierre Verger

     Pierre Edouard Léopold Verger, conhecido como Pierre Verger, nasceu em Paris, França, no dia 4 de novembro de 1902 e faleceu em 11 de fevereiro de 1996 em Salvador, Bahia, onde viveu grande parte de sua vida. Pierre foi fotógrafo, etnólogo, antropólogo, pesquisador e, apesar de ter se sustentado por meio da Fotografia enquanto viajava pelo mundo, ficou mais conhecido por seu trabalho sobre o culto aos orixás, que articulou suas quatro áreas de atuação. 

     A obra de Pierre Verger no que se trata de fotografia tem mais de 60.000 fotos, sendo um trabalho de grande importância, baseado no cotidiano e nas culturas populares dos cinco continentes. Produziu uma obra escrita de referência sobre as culturas afro-baiana e diaspóricas, além das que tratavam de questões voltadas para o candomblé, tema que tornou-se seu principal foco de interesse.   

     Em 1932, quando tinha 30 anos, Pierre descobre a fotografia e consegue a sua primeira câmera fotográfica, uma Rolleiflex. Após o falecimento de sua mãe, sua última parente viva, Verger decidiu se tornar um viajante solitário, levar uma vida livre e não conformista. Assim, ele viajou os cinco continentes e passou por diversos países, sustentando-se com a fotografia, já que negociava suas fotos com jornais, agências e centros de pesquisa. Apesar de trabalhar para as melhores publicações da época, Verger nunca almejou a fama e estava sempre de partida. Assim, o fotógrafo  costumava dizer que: "A sensação de que existia um vasto mundo não me saía da cabeça e o desejo de ir vê-lo me levava em direção a outros horizontes."

    Depois de suas diversas viagens, Verger chega ao Brasil em 1946, na Bahia, influenciado pela leitura do romance jubiabá do escritor Jorge Amado. A partir de então, sua forma de ver o mundo mudaria radicalmente. Ele logo ficou encantado com a hospitalidade e riqueza cultural que encontrou na cidade, e assim, viveu em Salvador grande parte de sua vida, onde também, descobriu o Candomblé e se tornou um estudioso do culto aos orixás. Foi a partir desse interesse pela religiosidade de origem africana que ele conseguiu uma bolsa para estudar rituais religiosos na África, para onde partiu em 1948. Essa viagem também tinha o objetivo de compreender melhor as fortes ligações culturais e históricas entre a Costa do Benin e a Bahia. 

      Após sua chegada na África, em 1953, Verger vive seu renascimento. A proximidade com o Candomblé, a qual havia começado anos antes, na Bahia, facilitou o seu contato com sacerdotes e autoridades, o que o fez ser iniciado na adivinhação como Babalaô. Assim, recebeu um novo nome: “Fatumbi” - que significa "nascido de novo graças ao Ifá". Depois da viagem, a religião praticada pelos povos e seus descendentes na África Ocidental e na Bahia passaram a ser os temas centrais das pesquisas e da obra de Verger. 

       No final dos anos 70, ele parou de fotografar e fez suas últimas viagens de pesquisa à África. Verger, tendo noção da importância de seu trabalho, começou a organizar e guardar toda essa obra, que em grande parte se encontrava na França. Assim, nasce a Fundação Pierre Verger, destinada a cuidar e divulgar sua obra, mas que também se torna um importante centro de pesquisa. Para Verger, a criação da Fundação era a consequência de dois de seus amores: o que sentia pela Bahia e aquele que tinha pela região da África, situada no Golfo de Benin. A obra escrita por Pierre Verger é diversa e multidisciplinar, e suas pesquisas se tornaram obras de referência para várias áreas do conhecimento científico, sendo muito pesquisadas e procuradas por universitários e pesquisadores de diversas disciplinas e nacionalidades até hoje.

Autoretrato de quando chegou à Bahia na década de 40

Da esquerda para a direita e de cima para baixo: foto 1: Caymmi, Salvador, Brasil, 1946; foto 2: Capoeira, Salvador, 1946-1948; foto 3:  Humahuaca, Argentina, 1941-1942; foto 4:Cacto, Apacha Trail, Estados Unidos, 1934; foto 5:  Briki, Ifanhin, Benin, 1958; foto 6:Candomblé Opô Afonjá, Salvador, 1950 - Mãe de santo responsável pela iniciação de Verger no Candomblé

REFERÊNCIAS DE TEXTO

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CIOFFI, Silvio. Flagrada por Atget, a Paris da esquina do século ainda existe. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/turismo/fx2712199904.htm> Acesso em: 05 maio 2021.

DUPÊCHER, Nathalie. Eugène Atget. Disponível em: <https://www.moma.org/artists/229> Acesso em: 05 maio 2021.

FUNDAÇÃO PIERRE VERGER (Biografia, exposições virtuais, oficinas, gravações, entrevistas, biblioteca comunitária, loja, etc.). Salvador/BA.  Disponível: <www.pierreverger.org > Acessado em 14  abril 2021.

HYPERCUBIC. PINCELLI, Renato. Memória Fotográfica: Eugène Atget. Disponível em: <https://www.blogs.unicamp.br/hypercubic/2019/01/memria-fotogrfica-eugne-atget/> Acesso em: 05 maio 2021.

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STUDIUM. COSTA, Luciano da. Ebriedade, cidade e imagem dialética. Disponível em: <https://www.studium.iar.unicamp.br/38/04/index.html> Acesso em: 05 maio 2021.

REFERÊNCIAS IMAGÉTICAS

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Fotografia de Eugène Atget (Paris, 1927), por Berenice Abbott - Disponível em: <https://www.moma.org/collection/works/47984> Acesso em: 03 maio 2021.

Fotografia Notre Dame vista de Quai de la Tournelle (Paris, 1923). Disponível em <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d5/Eug%C3%A8ne_Atget%2C_N%C3%B4tre_Dame%2C_1922.jpg>Acesso em: 03 maio 2021.

FUNDAÇÃO PIERRE VERGER (Biografia, exposições virtuais, oficinas, gravações, entrevistas, biblioteca comunitária, loja, etc.). Salvador/BA.  

Fotografia Prostituta fazendo o turno em La Villette, 19e (Paris, 1921) Disponível em: <https://fr.wikipedia.org/wiki/Fichier:Eug%C3%A8ne_Atget_La_Villette_fille_publique_faisant_le_quart_1921.jpg>Acesso em: 03 maio 2021.

Fotografia Rua do Sena (Paris, 1924). Disponível em: <https://greg-neville.com/tag/eugene-atget-rue-de-seine/> Acesso em: 03 maio 2021.

Fotografia Spring, pelo escultor François Barois, em Jardin des Tuileries, 1st arrondissement (Paris, 1907). Disponível em: <https://www.artgallery.nsw.gov.au/education/exhibition-kits/eugene-atget/gardens/. Acesso em: 03  maio 2021.

Fotografia Tocador de Órgão (Paris, 1898-1899). Disponível em: <https://fr.m.wikipedia.org/wiki/Fichier:Eug%C3%A8ne_Atget,_Street_Musicians,_1898%E2%80%9399.jpg> Acesso em: 03 maio 2021.

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