A moda é pop

E o pop não poupa ninguém

Por Mariana Faria

O Império cor-de-rosa de Lediane

 

“Quer saber? Já estou na chuva, então é pra molhar: bota aí, Lediane Guedes!”

E foi assim que o sorrisão da Lediane convenceu o meu ego de quase-jornalista a escrever sobre ela. Despojada nos mínimos gestos, ela não poupa esforços para falar ou gesticular sobre o seu “império” – denominação usada por ela – e como ela conseguiu chegar até ali. “Eu nunca gostei de ir e ó – ela puxa minha camiseta como uma criança puxa a barra da saia da mãe – no meu pai, sabe?” Lediane não gosta de ir pedir aos pais que façam coisas por ela. Gosta é de correr atrás das coisas sozinha.

 

O império de Lediane tem em torno de 48 m², muitas araras, muitos estilos e muitas cores. Tem vestido de festa, tem blusinha, tem camiseta. Tem também vale-presente, de R$ 50, R$ 100, R$ 150, que vem em uma caixinha toda enfeitada, que, por sinal, é a cara da Lediane. O império dela é rosa, rosa da Penélope Charmosa. As cortinas dos dois vestuários são rosas. A coluna – “presente da Estação Goiânia” – e o balcão são plotados com vários “Lediane Guedes” em fontes diferentes; mas todas cor-de-rosa. A logo da loja é rosa, assim como o mini puff, o porta-coisas, a tesoura, a caneta. Na parede atrás do balcão, um coração rosa choque com um “L” no meio.

 

“Eu sempre fui muito invocada com cor-de-rosa, por causa do balé clássico. No curso de Direito eu andava de terninho rosa, porque curso de Direito o pessoal é tudo muito sério, terno preto, azul-marinho, marrom. Eu era conhecida como a Penélope Charmosa do Fórum – rimos – de terno cor-de-rosa, amarelo… Sempre muito irreverente. E eu levei minha cor cor-de-rosa para o curso de Design. No final, quando eu terminei os dois cursos, meu pai me deu um fusca rosa. Sempre tive esse apelido, Penélope, Penélope, Penélope.”

 

Lediane de Cássia Medeiros Guedes é pisciana e “muito crente em Deus”. Nasceu em Goiânia, filha de funcionários públicos. Ela formou-se primeiro bacharel em Direito, na Universidade Salgado de Oliveira, em 2006. Apaixonada por arte, quis fazer arquitetura, mas o curso era muito caro; “faltava o faz-me rir”, diz, esfregando o dedo indicador no polegar.

 

A propósito, a Lediane pagou os dois cursos que fez com o dinheiro dela. Vendia bolsas na faculdade para ajudar nos custos. “Tenho muito orgulho de ter sido “sacoleira”. Foi de onde eu comecei.” Ela decidiu, então, fazer Design de Moda, já que era idem ligado à arte; graduou-se em 2007. “Diz que quando Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela né?” A arquitetura era a porta. A moda, a janela. “A moda era uma área muito interessante.”

 

“Lediane Guedes – Moda Maior” é uma loja que vende plus size. Traduzindo, literalmente: plus, “mais” e size, “tamanho”. Mais tamanho. O império de Lediane é uma loja “para gordinhas”. Porém, para ela, comercializar roupas plus size é muito mais que apenas vender. O sorrisão da Lediane estampa o rosto quase que em tempo integral; seus dentes são branquinhos e alongados, o que me faz divagar por alguns segundos durante a conversa, até ser fisgada de novo pela história contada de jeito peculiar. Neste momento, porém, ela fica séria, como se quisesse me dizer, antes mesmo das palavras, que a próxima informação era, de fato, muito importante. “Eu tô aqui pra vender sonhos.”

 

Desde cedo, Lediane tinha dificuldades para encontrar roupas que dessem certo com o seu corpo. Não apenas ela; a mãe, as amigas e suas atuais clientes. Depois que estudou moda, essa percepção voltou-se para o mercado, e ela constatou o quão carente é o segmento de roupas – bonitas, confortáveis, no corte certo – para pessoas gordas. E assim, quando surgiu a oportunidade de montar sua loja na Estação Goiânia, em 2007, Lediane decidiu agarrá-la. Para isso, contou com sua crença em Deus e um pouquinho de sorte. Na semana em que ficou sabendo do espacinho na Estação – que era metade do tamanho que a loja é hoje –, não tinha dinheiro suficiente para adquiri-lo. Contudo, exatamente naquela semana, uns cinco dias depois, ela foi sorteada nos dois consórcios de moto que participava. Nunca havia ganhado uma moeda daquele dinheiro; mas àquela semana mudou a vida dela para sempre.

 

Imagine, uma menina que não tinha nada na conta bancária, agora com cachê suficiente para obter seu próprio estabelecimento. Titubeou um pouco. Perguntou ao pai, que a aconselhou a seguir seu sonho. Resolveu, então, segui-lo. Assim nascia Lediane Guedes, loja 30, na rua D-05, no Shopping Estação Goiânia. Um império. Uma fábrica de sonhos. Quando pergunto a ela se já pensou em desistir, Lediane volta com seu sorrisão. “Você não está só vendendo uma roupa. Você está fazendo bem para uma pessoa. Aí você pára e pensa, nossa, eu não posso desistir!” Mas claro, como todo bom comerciante, ela já fraquejou. Já levou calote. Já reuniu todas as suas forças para pedir a Deus para aparecer uma cliente para conseguir pagar suas contas; e as clientes sempre apareciam. Desistir, não.

 

No dia em que foi assinar os papéis para efetivar a compra do seu cantinho, a Lediane ainda não tinha certeza do nome que daria à sua marca. Pensou em vários, não gostou de nenhum. Nem se ocupou em me contar quais eram as outras opções. Ela esticou o sorrisão. O seu império se chamaria Lediane Guedes; e ainda brincou dizendo que deixou o pai avisado que agora ele deveria zelar mais pelo sobrenome da família. Depois de um tempo, por estar em um mercado popular, Lediane percebeu a necessidade de o público ligar a loja ao nome. “Esse povo vai conhecer meu nome de todo jeito. Vai enjoar de ver o meu nome.” Foi assim que surgiu a parede e balcão plotados de “Lediane Guedes”. E ela ainda não terminou; está juntando o dinheiro para plotar a loja inteira.

 

Algo me intrigou na história de Lediane. Pudera ser o seu carisma, ou seu sorrisão; ou, quem sabe, seu jeito brincalhão e sem papas na língua, que me fizeram gargalhar nos primeiros cinco minutos de conversa. Conseguira compreender, com aval da experiência, por que as clientes a amavam.  Entretanto, mais uma dúvida, antes camuflada pelo deslumbramento com a narrativa, foi posta na cabeça desta (quase) jornalista: por que a Lediane nunca seguira a carreira de Direito? Seria frustração? Algo deu errado? Explico-lhes o motivo de tais questionamentos: graduar em Direito ainda é motivo de prestígio social. É uma carreira promissora, apesar de difícil; e convenhamos que as estatísticas salariais estão mais favoráveis ao Direito do que ao mercado popular de moda.

 

“Não”. Esta foi a resposta para as minhas perguntas. Não foi frustração. Nada deu errado. A Lediane não tem exame de ordem – famoso OAB – pois ela escolheu ser comerciante. Escolheu vender. Escolher fazer o que ela mais ama.

“Eu não nasci pra ser office boy de luxo. Eu tenho sangue de comerciante. Igual te falei: eu vendo sonhos. Vendo a possibilidade da pessoa achar uma coisa e ficar linda nela, ficar maravilhosa. É isso que eu faço, é isso que eu sei fazer, é esse o dom que Deus me deu. E eu sou feliz com esse dom!”

Posts Recentes

Badulaqueira

 

Maxi estilosa

 

O Império cor-de-rosa de Leidiane

Sobre

Oi, eu sou a Mari. Goiana do pé rachado, quase-jornalista, ariana, apaixonada por moda e boas histórias.

 

Foi do desejo de vincular estas duas paixões que surgiu o Moda é pop. “Pop” no sentido literal e abreviado de “popular”, a proposta é mostrar que a moda é tangível a qualquer pessoa. Moda é comunicação e cultura, e qualquer indivíduo pode apropriar-se dela.

 

Venho, então, através de palavras, tentar ilustrar um pouco deste universo tão amplo que é a moda. Aqui, você encontrará histórias reais de pessoas que fazem, mexem ou se relacionam com moda, sob a perspectiva intimista desta autora que vos escreve. Compartilhamos paixões, anseios, sonhos.

 

Este também é um cantinho para dividir conhecimentos, dicas e achados. Vamos pensar juntas (os) em uma moda prática e um consumo consciente. Moda que eu e você usamos, que transforma e repete roupa, que aproveita uma loja de departamento, mas sabe investir em peças sofisticadas.

 

Sejam bem-vindos :)

Este perfil foi elaborado na disciplina Jornalismo Literário e orientadado pela professora Angelita Pereira de Lima, em 2014.

 

#JornalismoLiterário #Perfil #Chapeleiro #Profissão

Confira também

© 2015-2016. Criado por Vinicius de Morais Pontes, sob orientação do profº Nilton José dos Reis Rocha. FIC/UFG.