Sorte de poucos

Sobre os sortudos, os sem sorte e aqueles que olham a vida de outro ângulo

Por

LETÍCIA GONTIJO

CRÔNICA

Algumas pessoas têm sorte: são os 10 primeiros compradores do supermercado que ganham uma viagem para Bora Bora com um acompanhante. Aqueles que perdem a hora do compromisso e descobrem depois que o mesmo foi cancelado.

 

Essa gente tem a capacidade de sonhar com a vizinha do 708, apostar na cobra - no jogo do bicho - e ainda ganhar. Enquanto isso, nenhuma opção se enquadra ao unicórnio que aparece nos meus sonhos quase toda noite.

 

Por outro lado, tem gente que não abusa da sorte. “Melhor não sair de carro hoje porque parece que vai chover e meu limpador de para-brisa só funciona quando quer. E ele nunca quer”. Ou “melhor não atravessar a rua agora, mesmo que o carro não tenha dado seta, porque vai que ele vira e me atropela”.

 

Insistem que é melhor salvar um arquivo de dois em dois minutos porque vai que o computador desliga e todo seu trabalho é perdido. Exatamente. Podem chamar essas pessoas de medrosas ou coisa do tipo, eu só as abraço e digo “eu entendo vocês”.

 

Agora, coitados, tem gente que não tem sorte nenhuma. A última pessoa a ser atendida na fila da lotérica é a que fica na sua frente, você tem que ir embora e pagar aquele boleto com juros. É a que fica com o último pedaço do bolo de chocolate, mas tropeça e deixa cair.

 

Tem aquela garota que encontra o amor da sua vida passeando com o cachorro e na primeira oportunidade de aproximação pensa em dizer: “Oi! Qual seu nome?”, mas acaba dizendo: “Oi! Quantos anos você chama?”. Sorte seria se ambos tivessem muito senso de humor, mas não com esse tipo de gente.

 

Não tenho muitas amigas, mas a animação delas vale por um bando de torcedores pulando num estádio de futebol. No natal, decidimos fazer um amigo secreto. Enquanto três das quatro meninas ansiavam por um novo acessório, blusa descolada ou maquiagem, eu procurava uma sacolinha bem linda de alguma livraria.

 

Trocamos uma lista de possibilidades. Os meus pedidos eram quase todos de quadrinhos e livros que tenho interesse. Pensei que se alguém fosse acertar algum presente naquele bendito amigo secreto, seria o meu, afinal, estava ali, mastigadinho. 

 

Chegou a hora da revelação. Uma das meninas começou a se explicar sobre como comprou o presente: “tirei print no celular, mostrei a lista de possíveis presentes para a atendente e a minha bateria acabou. Não deu pra ver nada”. Apesar de estar sorrindo por fora, meu inconsciente repetia como um mantra “tomara que ela não tenha saído comigo”. Não adiantou, ela tinha me tirado. 

 

A menina continuou se explicando e disse que a única referência que tinha era o meu gosto por Star Wars e mesmo sem entender direito o significado de HQ, me deu uma história em quadrinhos que não estava nos meus planos de leitura e me surpreendeu. 

 

Uma leitura sensacional que eu teria deixado passar se não fosse essa obra maravilhosa do acaso. Também ganhei chocolates. E quatro abraços. E experiências que só as câimbras na bochecha conseguem explicar.

 

Tem gente que não sabe sorte que tem.

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