Por

BÁRBARA AGUIAR VALENTE

CULTURA

O herói da fantasia que salvou vidas reais

Como a obra de J. K. Rowling, Harry Potter, ajudou seus leitores na vida real?

Harry Potter, a série de livros escritos pela escritora britânica J. K. Rowlin -  publicados entre 1997 a 2007 e com adaptações de todos os livros para o cinema - já tem o seu nome na história dos clássicos que marcaram uma época. Os livros lançados há mais de 18 anos atrás ainda são atuais e cativam cada vez mais fãs a cada dia apesar da série já ter chegado ao seu fim.

 

Os livros foram traduzidos para 69 idiomas e venderam mais de 400 milhões de exemplares em todo o mundo. E está entre os 10 livros mais vendidos de toda a história da literatura. Enquanto as adaptações cinematográficas, Harry Potter, é a franquia com mais êxito entre os mais de 100 anos de existência do cinema.

 

Mas o que essa história teria de diferente, qual foi o segredo para alcançar tantos públicos em diferentes lugares do mundo, de diferentes idades e realidades? Talvez nunca saberemos a resposta, afinal, se soubéssemos o segredo do extremo sucesso ele se tornaria ordinário. Mas a questão não deve ser como e sim agora que chegou no topo do sucesso em que a séria ajuda? Em que influencia? Ela seria mais uma tendência passageira ou seria algo a mais?

 

Harry Potter e Hogwarts, a escola em que se passa a maior parte da história

Diferente de muitas obras icônicas que marcaram épocas, como o comportamento irresponsável de James Dean ou Os sofrimentos do jovem Werther, do alemão Wolfgang von Goethe que inspirou diversos suicídios, ou as melancolias e boemias pregadas em diversas escolas literárias durante a história. O fato de Rowling ter conseguido êxito pregando a honra e não a revolta e ter conseguido tantos seguidores de diversas idades, mas principalmente dos mais novos é algo quase que extraordinário.

 

Qual outra série do cinema conseguiu se manter por uma década com o mesmo elenco e bilheterias exorbitantes além da sempre boa recepção da crítica especializada? A história da britânica cria um herói digno de admiração e inspiração, onde nenhum pai se preocuparia se o filho seguisse o exemplo do bruxo.

 

A história, que apesar de sua maioria ser de infanto-juvenil, atinge jovens e adultos, os mais jovens tem a capacidade de se divertir com a história eletrizante e emocionante com elementos mágicos de tirar o folego, enquanto os mais velhos podem compreender a complexidade e a profundidade da história que trata de diversos temas importantes não só na sociedade bruxa como na nossa.

 

É um grande erro dizer que conto de fadas não ajudam seus leitores e que apenas inspiram uma imaginação fútil. C. S. Lewis, que escreveu As Crônicas de Nárnia, um dos grandes escritores de todos os tempos, diz que uma história fantástica ajuda muito mais que uma história no mundo real. Em sua defesa a fantasia, inspirada no ensaio de Tolkien sobre oscontos de fadas (A Árvore e a Folha), ele diz que enquanto histórias inspiradas na realidade podem frustrar muito mais uma criança, afinal, ela sabe que aquilo é possível e quando isso não acontece tem um impacto muito maior, histórias fantásticas são obviamente impossíveis, porém ensinam lições que o leitor pode aplicar em sua vida na tentativa de se aproximar um pouco mais do seu herói.

 

Por exemplo, Harry desobedece às leis do mundo bruxo para enfrentar o mal maior. Podemos pegar um exemplo que até inspirou a autora: o mal maior podemos colocar como Hitler e Harry seria todos aqueles que não concordavam com suas atrocidades. Desobedecer a Hitler era ilegal na Alemanha, mas se as pessoas desconsiderassem a ilegalidade e julgassem com a sua ética e seus valores pessoais quantas vidas não poderiam ser salvas? É importante que os jovens presem isso e lutem por isso, como Harry Potter nos ensina.

 

A obra também ensina a seus leitores a lidar com as diversidades, como os trouxas (pessoas que nascem sem poderes mágicos), mestiços (pessoas que tem pais trouxas), elfos domésticos (uma criatura considerada inferior e por isso é escravizada), Hagrid (personagem que nasce meio gigante e sofre preconceito por isso), Araroge (aranha gigante que é perseguida por ser considerada selvagem), centauros (que preferem viver longe da sociedade presando seus valores antigos), entre diversos outros. Podemos encaixar todos eles em nossa sociedade: negros, mulatos, nativos, estrangeiros, animais selvagens. De uma forma sutil, Rowling ensina que nem sempre quem ou o que é diferente é pior ou menor, que devemos aceitar as diferenças e conviver com elas.

 

Também podemos destacar a importância da família. Harry, apesar de órfão, nos ensina muito sobre a família, como quando sua mãe deu sua vida para salvar a dele, professores que exercem papéis afetivos, ou os Weasley, família de seu melhor amigo que o adota de certa forma. Isso ensina aos leitores que a entidade familiar nem sempre é aquela famosa forma tradicional com apenas pai e mãe, ela ultrapassa esses limites. Nos ensina a dar valor nas pessoas próximas que querem o nosso bem.

 

O fato da existência de magia nesse universo, para que não leu, pode parecer um problema. Críticas como “ensina os jovens que tudo se resolve em um passe de mágica” podem surgir, mas não é bem assim. Apesar da magia estar presente ela não resolve os problemas dos protagonistas de forma alguma, a magia é quase como um acessório, uma habilidade e nada mais que isso. Os problemas reais e profundos têm que ser revolvidos com muito mais, de uma forma bem real e sóbria.

 

Há controvérsias entre religiões, se Harry Potter seria ou não bom para seus fiéis, porém, como clássicos da fantasiacomo As Crônicas de Nárnia (C. S. Lewis) e O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien), a autora tenta ensinar valores aos seus leitores se inspirando no cristianismo. O jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, elogiou a obra por “pregar valores como amizade, altruísmo, lealdade e auto sacrifício”. Além da obra não tratar diretamente sobre religião ou Deus, o que abre oportunidade para qualquer um ler, independente da sua religião ou da falta dela.

 

Fãs fantasiados de personagens dos filmes

Enfim, Harry Potter nos ensina seus leitores a serem pessoas melhores, inspira a lealdade, humildade entre outros valores importantes para os indivíduos. Nos ensina a superar problemas e até ajuda os seus leitores com isso, colocando em sua história diversos problemas onde todos passam durante a vida e provando que é possível superá-los, não só isso, mas nos mostrando como, nos dando força e coragem para enfrenta-los para nos aproximar cada vez mais dos personagens que aprendemos a amar. Ou evitarmos certas ações para não nos tornarmos os personagens que aprendemos a odiar.

 

É uma leitura que levamos para vida, são valores que ficam gravados na mente dos leitores e que os inspira a melhorar a cada dia mais. São histórias que mostram que não estamos sozinhos com nossos problemas, que podemos superá-los. Histórias que provam que está tudo bem em ser diferente, que nos ensinam a lutar pelo que acreditamos, que ensinam a dar valor as pessoas que nos amam.

 

Os livros e os filmes chegaram ao fim, mas o legado da saga de J. K. Rowling vai continuar na história ainda por muito tempo, inspirando ainda muitas crianças, adolescentes, adultos e idosos. Ensinando seus leitores a serem pessoas melhores e mostrando que ser bom é bom.

 

 

 

Fontes:

 

http://charlezine.com.br/os-20-livros-mais-vendidos-da-historia/

 

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI187428-15227,00-A+GERACAO+HARRY+POTTER.html

 

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