Por

RUD
SILVA CARNEIRO

CIDADES

As entrelinhas do trânsito

Olho

Ah, o trânsito! Esse que todo santo dia, exceto dia santo, leva embora boa dose de humor. Isso sendo otimista. Pois bem, esse acontecimento social, esse fato, essa coisa que é ir e vir numa cidade como Goiânia, há algum tempo, instiga à uma análise dos indivíduos que nela circulam, a partir do modo como transitam.

 

Segundo um dos dicionários mais populares do Brasil, O Aurélio, transitar é um verbo que significa“fazer caminho, passar, andar. Mudar de lugar, classe ou estado, condição, etc.”. Agora imagine a maioria das pessoas da cidade fazendo isso e usando os mais variados meios, simultaneamente. Então, isso é o trânsito.

 

Soma-se a ele a falta de opções de transporte público eficientes, a desprezível política de mobilidades e um excesso de veículos automotores circulando e pronto, faz-se o tão falado trânsito caótico das grandes cidades.

 

Estar inserido nessa realidade exige muito de todos. E dessa loucura é possível construir uma pequena e tola análise antropológica dos indivíduos que vivem nesses lugares, conforme agem no seu ato de se locomover.

 

Qualquer gentileza ou paciência praticada nesse caos é pouca, pois basta um ato minimamente hostil, deliberado ou não, para se entender quem é quem nesse contexto. As ações tornam-se evidências concretas do caráter de cada um.

 

Um exemplo. De repente, ao parar no semáforo, se lê a seguinte frase adesivada no para-brisas traseiro de um carrão à frente “Foi Deus que me deu”. Sem entrar nos méritos gramaticais, ou no porque Deus agracia alguns de seus filhos em detrimentos de outros, observa-se que este veículo está parado, imponente e ostentoso, sobre a faixa de pedestres.

 

Nesse momento a inquietação surge. Será que essa pessoa é tão boa para Deus que merece ter um trambolho luxuoso para, no seu conforto, atrapalhar toda sorte de pessoas que estão a desviar do carro enquanto atravessam a rua? Parece improvável, quem sabe imoral. E isso é algo que deus nenhum deve ser.

 

Outro exemplo é o período eleitoral. Aí é uma festa! Vira e mexe cruzamos com carros inteiramente caracterizados pedindo voto para o candidato A, B, C etc. Até aí tudo bem. Mas de repente você vê o motorista de um desses carros virando em local proibido, estacionando em zona indevida, andando na contramão e berrando com aqueles que ousam reclamar de sua magnânima estupidez.

 

Ora, nesse momento ocorre à mente que se esse nobre cavalheiro é o cabo eleitoral, tão pior deve ser o seu candidato. Ou seja, este infeliz está a prestar um total desserviço àquele que o paga, quase que escrevendo na testa, “não votem no meu candidato”. Sim, pois cabo eleitoral só existe porque recebe alguma vantagem de seus patrões/candidatos. Mas isso é um outro debate.

 

Visualize esse este outro fato. Você leva uma “fechada” na rua e quando observa o carro que fez isso lê um pequeno adesivo “UFG”. Como dizem por essas bandas,“é pra acabar com os pequis de Goiás!” Sim, pois o “gênio” consegue entrar numa universidade desse gabarito, mas continua um ignorante. E o pior, será um profissional, se assim prosseguir, no mínimo duvidoso. Mais. Se você tiver o disparate de se aborrecer com a “fechada”, é provável que seja xingado por ignorante diplomado.

 

Afinal, pessoas que furam o sinal, estacionam em vagas que não lhes são destinadas, xingam, ofendem, brigam e até matam no trânsito só deixam transparecer o que de fato são. Evidenciam a miséria humana e escancaram a sua estupidez.E atire a primeira pedra quem nunca furou um semáforo durante a madrugada por medo da violência, ou então fez um retorno onde não podia? Mas apesar disso, há de lutarmos para sermos melhores pessoas.

 

No entanto sabe aquele entendimento Foucaulteano (Michel Foucault, importante intelectual Francês do século XX que escreveu sobre as relações de poder e controle social) que o poder não se tem, se exerce? É o que se apresenta nas ruas, onde quem se reveste da maior armadura investe sua força sobre o outro. Ou seja, quem dirige um veículo de maior porte exerce seu poder e subjuga os menores, sucessivamente.

 

Porém no CTB (Código de Transito Brasileiro) o que se determina é justamente o contrário:

 

“Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres” (CTB Capítulo III - DAS NORMAS GERAIS DE CIRCULAÇÃO E CONDUTA, Art. 29 § 2º).

 

O trânsito é apenas mais um palco da vida como ela é, como diria o saudoso Nelson Rodrigues. E nesse palco, por vezes, se está sem máscaras, desnudado. Escancarado em nossa vulgaridade humana, egoísta e baixa que transforma o mundo naquilo que é.

 

É provável, brasileiros que somos, que ainda veremos muitas ultrapassagens pela direita, veículos bloqueando acesso de cadeirantes, o uso do pisca-alerta como poder de parar onde, quando e como quiser, e muitas outros egoísmos até que algo, em nós, realmente mude. E olhe que nem falei dos taxistas.

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