Foto: Lizi Dalenogari

Agricultura familiar e os impactos da pandemia

Júlia Barbosa

Em meio à crise do coronavírus, pequenas e pequenos agricultores criam estratégias para enfrentar a situação

Em meio à tantas crises atuais e simultâneas no Brasil, intensificadas, agora, com a pandemia, é preciso pensar, principalmente, em como os pequenos, e neste caso, da agricultura familiar, estão sobrevivendo ao confinamento e mantendo sua produção. De acordo com Silda Lorena, pequena agricultora de Iporá, na região do Médio Araguaia, o primeiro obstáculo enfrentado foi o conflito de informações e a falta de orientação. 

Em 17 de março, o governo de Goiás decretou o fechamento do comércio por quinze dias, incluindo o funcionamento das feiras. Ainda que a medida tenha sido necessária, a falta de instrução em relação à ela causou apreensão em agricultoras/es, que comercializam a maior parte da produção em feiras, pequenos empreendimentos e direcionadas à merenda escolar, através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Feiras liberadas - No dia 03 de abril, o governador Ronaldo Caiado autorizou o retorno das feiras livres, com uma série de orientações, tanto para feirantes, quanto para consumidoras/es. Para Silda, mesmo as medidas de prevenção e cuidados reforçados não foram suficientes para o retorno das/os clientes, que ainda se mostram receosas/os.

 

Além disso, comerciantes que são ou têm contato com pessoas do grupo de risco (idosos, pessoas que possuem doenças crônicas como diabetes, hipertensão e asma) devem permanecer em casa, sendo outro fator para o esvaziamento das feiras. “Por causa disso, mesmo liberadas, as feiras não estão funcionando plenamente”, explica.

Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária de Iporá volta a funcionar seguindo orientações durante a pandemia Foto: Lizi Dalenogari

Novas estratégias - Com as vendas físicas dificultadas, surge a necessidade de mudanças, sobretudo na comercialização. Foi aí que agricultoras/es familiares de Iporá retomaram uma iniciativa nomeada “Zap Feira”, que funciona como um mecanismo de encomendas e entregas. A venda é feita via whatsapp, por uma lista de consumidoras/es pré-cadastradas/os.

“O Zap Feira é uma estratégia de venda importante para agricultoras/es familiares, mas ainda não alcançou os resultados que acreditamos serem possíveis”, afirma Silda. Segundo a pequena agricultora, recentemente, foram feitas algumas reformulações, visando o maior protagonismo de todas e todos no processo de vendas, facilitando a divulgação e popularização da ferramenta.

Mais impactos - Outro ponto diretamente atingido pela pandemia foi a continuidade de alguns projetos referentes à agricultura familiar, como a emenda parlamentar do deputado Rubens Otoni (PT-GO), que seria para o custeio de ações de grupos do Território Médio Araguaia. O projeto visa, num primeiro momento, trabalhar a organização produtiva de sete núcleos do Território.

O projeto Energia das Mulheres da Terra também teve atividades suspensas temporariamente devido à pandemia. A fim de potencializar as atividades femininas no campo, o projeto visa a implantação de tecnologias de energia renovável. De acordo com Silda, o Energia das Mulheres já estava preparado para algumas iniciativas no Assentamento Padre Ilgo, em Caiapônia, onde, no mês de março, seriam instaladas bombas solares e reservatórios de água da chuva.

O respeito de feirantes às normas sanitárias têm estimulado os cuidados das/os consumidoras/es Foto: Lizi Dalenogari

Apesar das dificuldades, Silda Lorena acredita que a agricultura familiar conseguirá fazer mais este enfrentamento. Ela afirma que agricultoras/es têm conseguido trabalhar bem as novas estratégias, juntamente às/aos clientes. “A pandemia está exigindo uma mudança de ação, mas nós vamos conseguir, ainda que por meios alternativos”, finaliza.

A última edição da feira, nesta quinta, evitou aglomerações, mas houve boa comercialização Foto: Lizi Dalenogari

Boa ironia

       Muito se fala e se ouve falar sobre economia em tempos de coronavírus. Um dos comentários que surgiram nesta discussão, feito por Junior Durski, dono da rede de restaurantes Madero, defende que o Brasil não pode parar por “5 ou 7 mil mortes”.  Isto apenas desmascara a economia capitalista, genocida e que prega campanha pela morte, em que o lucro é mais valioso do que as vidas da população.

        Mas, tratando-se de economia, não se pode limitá-la aos impactos às grandes empresas ou à como estes grandes empresários estão defendendo suas fortunas. Em contrapartida, no mesmo dia em que Durski demitiu 600 trabalhadores, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) doou 12 toneladas de arroz para pessoas em situação de vulnerabilidade. Uma ironia dessas não poderia, nem no Brasil, passar batido.

Mesmo com a diminuição do fluxo de feirantes e consumidoras/es, a reabertura, segura e  cuidadosa, da feira assegurou maior comercialização da produção familiar Fotos: Lizi Dalenogari

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